Guimarães Rosa da viola caipira

O músico e pesquisador sertanejo Roberto Corrêa, que levou o instrumento para a orquestra sinfônica, lança este ano na Sala seu novo disco

LENA FRIAS

Foto de Alice Varajão
[Roberto Corrêa]

Se você carece de talento mas quer muito ser violeiro, do porte de um João Pacífico, Roberto Corrêa e Zé Mulato. Almir Satter, Paulo Freire e Chico Lopes. Ou Rogério Gulin, Tião Carreiro e Zé Côco do Riachão, o jeito é a simpatia da cobra coral. Tem que sair de noite pelo mato, com uma candeia acesa, em busca de um filhote de cobra coral. Vai prender a cabeça da venenosa entre o indicador e o polegar da mão direita. Instintivamente a cobra se enrosca. É preciso então desfazer a rodilha com a mão esquerda e sem usar o polegar. O corpo da cobra tem que deslizar e se entrançar entre os dedos da canhota. Depois solta-se o filhote no lugar e posição em que foi encontrado. Pronto, se escapou da mordida, já virou um violeiro.

Roberto Corrêa, que levou a viola caipira à orquestra sinfônica e hoje é requisitado para temporadas internacionais, não precisou da simpatia da cobra coral. Nem de se assombrar no cemitério em noite de sexta-feira santa, evocando o espírito de um mestre-violeiro falecido. Muito menos firmar pacto com o diabo, mediante o qual o capeta ensina a arte em troca da alma. Roberto, que ainda este semestre irá lançar na Sala Cecília Meireles, no Rio, seu novo CD, Sertão ponteado, já nasceu violeiro. "A viola é um dom de Deus", ponteia o sertanejo de Campina Verde, no Triângulo Mineiro, professor-pesquisador da Escola de Música de Brasília, cidade onde mora. "Não dou mais aulas mas continuo na pesquisa e faço oficinas de viola caipira no país todo, mostrando as técnicas do instrumento e o universo do violeiro." Sertão ponteado, sobre cantares do Cerrado, foi realizado em parceria com a Subsecretaria de Articulação para o Desenvolvimento do Entorno do Distrito Federal, com apoio da Escola de Música e da Fundação Cultural do Distrito Federal. Os cantos de devoção, diversão e trabalho, o terço, a dança de São Gonçalo, as cantigas de roda foram recolhidos nas suas geografias e vozes próprias. "No começo meu interesse eram as variações regionais da viola caipira, mas o contato com antigos violeiros abriu para mim um universo muito mais amplo e misterioso, que descobri também meu."

O trabalho de Roberto Corrêa como músico profissional e pesquisador resultou em 13 títulos, entre livros e discos. O primeiro livro é Viola caipira, de 1983, resultado de uma pesquisa patrocinada pelo CNPq e ainda o único estudo sobre o instrumento. Ele lançará este ano A arte de pontear viola, que vai incluir um CD, partituras e tablaturas - cifras que permitem tocar mesmo sem conhecer teoria musical. Ele produz também o seu próximo disco de carreira, Temperança, com peças próprias e parcerias com o avô, João Baptista Corrêa.

O avô é uma história e tanto. Exímio violeiro e versador, era também militante numa luta individual e quixotesca contra os poderosos de sua região. Valia-se de verso e viola na crítica à politicagem e aos abusos do poder. Em 1937 compôs uma moda de grande sucesso, todo mundo cantava e ponteava a crítica pesada contra os donos do poder. Em conseqüência, foi assassinado numa tocaia, na frente do filho de 9 anos. O menino tomou horror à viola, abafou o próprio talento e, quando, já adulto, veio a constituir família, teve o cuidado de esconder o passado. "Meu pai quebrou a linha de tradição violeira da família."

Roberto, neto daquele atrevido João Baptista, estudou física e música na Universidade de Brasília. "Um dia, eu ainda era estudante, passei por um supermercado, vi uma viola e comprei. Parecia que a danada estava me chamando. Eu tocava violão, mas alguma coisa me dizia que aquele não era só um instrumento a mais." A viola tomou conta dele a tal ponto que o título universitário passou a lhe pesar. "O que estava escrito no diploma não correspondia à minha verdade. Ali dizia que eu era um físico, mas eu sabia que era um violeiro."

Anos depois, já músico respeitado, é que veio a conhecer a história do avô. "Eu retomei por instinto a linha de tradição de viola dos meus antepassados." Basta acompanhar o trabalho de quase duas décadas de Roberto Corrêa para sentir que nas suas mãos a viola caipira enluarou-se, além de vestir-se com as galas sinfônicas. O currículo inclui concertos em todo o Brasil e uma vasta folha no exterior - no Japão, país que hoje detém a preciosa coleção de violas de Roberto, no museu da cidade de Osaka; na China, Alemanha, Itália, Portugal, Cuba, México e praticamente toda a América do Sul e Central. Para o final deste ou começo do ano que vem, Roberto prepara mais uma turnê pela Europa, que inclui Portugal, Espanha e Itália. A crítica destaca seus discos entre os melhores. Sobre Uróboro, uma preciosidade, comentou Tárik de Souza, crítico do JB: "Roberto Corrêa ponteia com erudição sua assumida viola caipira, na pele de um Guimarães Rosa encordoado."

Conhecedor dos segredos do mato, da arrevoada das garças em cima dos pantanais, dos sotaques de folia, da demanda de bandeiras, quando quem perde tem que entregar estandarte, prendas e penitentes, "humilhação de que só escapa gente esperta como o Zé Firmino". É esse o moço escolado nos mistérios da viola, instrumento malicioso e izoneiro que quem sabe sabe e quem não sabe, não. "Sou um caipira no sentido mais orgulhoso da palavra, um sertanejo violeiro, neto, bisneto e trineto de gente de corda e couro, de madeira e barbante passado na cera de abelha para o trasto ficar melhor. Se conto essas coisas é pra mostrar a importância da ancestralidade da minha família e da minha região e o sentido de tudo isso na minha carreira de músico contemporâneo."

E assim tendo dito, passa alegremente a contar o caso do mestre Zé Firmino, que precisava de uma coroa para a folia de reis. "Zé bebeu muitas demais e esqueceu de arrumar a coroa. Então resolveu tomar emprestada a de Nossa Senhora, na igrejinha local. Era só o tempo de alvorar a folia e levar de volta." Firmino e o contra-mestre, àquelas alturas já com a moringa cheia, subiram no altar com o fito de subtrair a coroa da santa e, no escuro, escutaram a voz do padre: "Quem está aí? Quem são vocês?" Apesar do susto, não se apertou: "Nói é anjo, seu padre." E o capelão: "Então avoa pra mim ver." Firmino bateu em cima: "Nói num pode avoá, seu padre, pruquê nói é filhote." Histórias de sertão que Roberto traduz na viola. Discos que exprimem trabalhos assim vendem bem? "Vendem. Nós que trabalhamos com temas de cultura temos que nos tornar cada vez mais independentes, nos fortalecer e estabelecer o nosso próprio mercado. É fundamental que os violeiros afirmem seu trabalho no contexto da nova música brasileira", diz.

São diversos os tipos de viola. Tem a caipira, descendente da que veio de Portugal. Entre as criações brasileiras estão a viola de cabaça, a de cocho e a de buriti. A de cocho, com cinco cordas originalmente de tripa, é de Mato Grosso, da região que abrange Cuiabá, Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço e zonas pantaneiras. É inteiriça, modelada numa tora de madeira cavada - o cocho -, que recebe um tampo de raiz de figueira. A de buriti, com caixa retangular, é feita de três talos dessa palmeira, colados um ao outros. E segue em frente o mestre-violeiro, ensinando essas coisas boas de saber. Vai pelos campos de calcário, pedregulho e cristalinas, buriti e pau-santo, ipê e peroba, capim flexa e barba-de-bode. Por onde chacoalham surucucu, caninana e cascavel, na bela Suíte das cobras, composição de Roberto Corrêa na qual filhote de coral e trato com o diabo não tiveram vez. "Viola é dom de Deus."

Lena Frias, Jornal do Brasil, Caderno B, 27/03/99
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