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Roberto Corrêa – A Nova Linguagem da Viola Universal
Pode um violeiro soar como um discípulo de Jimmy Page? No caso de Roberto Corrêa, a resposta é afirmativa. Considerado como um dos melhores músicos da nova geração de instrumentistas brasileiros, Correa conta, em entrevista exclusiva à COVER GUITARRA – ACÚSTICO todas as nuances de sua carreira, do seu som e de como a viola – um instrumento quase que imediatamente relacionado às raízes da cultura musical brasileira – está atravessando fronteiras e despertando a atenção do mundo inteiro. 

(por André Mesquita; fotos: divulgação) 

Você conseguiria precisar o exato momento em que a música entrou na sua vida? 
Correa – Na verdade, eu comecei tocando violão aos oito, nove anos de idade. Eu aprendi as primeiras notas deste instrumento com José da Conceição, não por partitura, mas por imitação. Anos depois, fui para Brasília estudar Física e, na universidade, tínhamos um grupo de música folclórica. Eu tinha um som de viola na cabeça, em música caipira, até que vi, numa loja daquela cidade, uma viola. Peguei-a, comecei a tocar e percebi que havia algo muito maior que o instrumento em si. Comecei a ‘ir atrás’, pesquisar sobre as diversas afinações... Mas como ninguém sabia me explicar direito, comecei a viajar para aprender isso diretamente com os violeiros. Cheguei a fazer uma proposta para o CNPQ de uma pesquisa sobre viola, que levei quatro anos para concluí-la, tendo os resultados publicados no meu Viola Caipira em 1983. Este foi o primeiro livro sobre viola publicado no mundo. Sabe, quando eu peguei a viola na mão pela primeira vez, eu fiquei apaixonado por ela. Até então, eu nem sabia que existia uma história de violeiro na minha família – no caso, o meu avô. Eu fui compondo, sabendo que aquelas composições eram a melhor coisa que eu podia fazer de viola. Era um universo que estava muito além do que eu conhecia.

O fato de ter estudado violão chegou a lhe causar alguma estranheza quando você começou a tocar a viola, visto que são posturas e posições um tanto quanto diferentes... 
Correa
– Isso acabou ajudando muito, até porque o violão é um instrumento que se desenvolveu muito tecnicamente. Alguma dificuldade surgiu quando eu comecei a aprender a técnica com os violeiros, porque eu tinha mão de violonista clássico, e tocava como violonista. Quando eu ia fazer as coisas que eles faziam com a mão direita, eu não conseguia, pois era uma levada completamente diferente. Então, eu fui aprendendo, bem devagar, a entender o jeito da mão e tirar o som que eu queria. Não podemos esquecer que a viola é um antecessor do violão, já que era um instrumento datado do século XV, que em Portugal recebia o nome de viola e na Espanha era chamada de guitarra espanhola. Só foi no final do século 18 que colocaram o violão como guitarra. E os portugueses levaram este instrumento para todas as suas colônias. O engraçado é que, no Brasil, a viola é o principal instrumento popular, coisa que não acontece mais nem em Portugal.

Como é que os seus estudos de Física contribuíram para você melhorar o seu instrumento?
Correa
– Muito interessante a sua pergunta... A Física me deu mais uma noção de pesquisa, de como solucionar problemas, e a viola tinha vários deles, como de afinação e calibração do instrumento. E eu não tive o menor pudor de mexer no instrumento para deixá-lo melhor. Fiz um trabalho com dois luthiers, Joaquim Santos e o Virgílio Artur de Lima, que é o meu luthier, sobre afinações no instrumento, no cavalete, com cada corda saindo de um lugar para afinar. Depois, descobri que o baixo fazia isso, chamado de tonação. Eu sentia que eu pegava para tocar as oitavas apertadas e, para temperar a viola, eu deixava a quarta corda um pouco baixa, justamente para que quando eu chegasse na oitava, a sonoridade ficasse melhor. Se eu afinar certo, passa. Quando eu vou tocar algumas peças-solos, o que não pode acontecer é desafinar (risos).

Já que estamos falando nisso, vamos abordar algumas de suas afinações? 
Correa
– Claro. Eu adotei uma única afinação, que é o chamado cebolão, em D maior. A escala do quinto par de cordas para baixo é A-D-F#-F-D. Agora, eu já usei o cebolão tocado em Eb, em E... No cebolão, cada um afina na tonalidade que quiser (risos). Eu acabei usando uma só, porque houve época em que eu fazia recitais com até seis violas com afinações diferentes. Tinha viola que precisava até trocar a corda (risos). Para facilitar as coisas, adotei essa afinação. Uma outra coisa que me facilitou na escolha dessa afinação é que como comecei a tocar com outros músicos, a afinação em cebolão – que tem o A e o D soltos – era a que mais combinava com os outros instrumentos. No meu último disco, No Sertão, só há uma única música – “Omana Deix’eu í (Sertão do Caicó)” - com uma outra afinação, chamada boiadeira, que é uma afinação que desce o quinto par de cordas para G, em vez de usar em A, já que você pode explorar outras afinações dentro da própria afinação.

Ouvindo dois de seus discos – Crisálida (96) e Uróboro (94) – dá para perceber, notadamente neste último, que há uma tremenda influência do rock na sonoridade deles. Isso se deve à influências antigas? 

Correa
– Legal você ter notado, já que eu mesmo nunca tinha pensado muito nisso (risos). Mas as influências são reais, pois na minha adolescência, eu ouvia rock direto, principalmente Black Sabbath (risos). Sei que parece incrível, mas eu fazia serenatas tocando músicas do Vol. 4 (gargalhadas gerais)... Eu gostava também do Pink Floyd, Deep Purple, T. Rex, Creedence Clearwater Revival, Paul McCartney, o Aqualung do Jethro Tull é ótimo, Genesis, a “Roundabout” do Yes... Só que, depois que eu comecei a me interessar pela viola, passei a comprar só música brasileira e, depois, só música caipira. Fui descobrindo a minha história com isso. Mas as minha primeiras influências vieram com o rock, embora eu não tocasse rock no violão, preferindo músicas populares como Dilermando Reis e Américo Jacomino. Hoje em dia, eu só escuto música barroca, desde Bach até grupos que ainda usam instrumentos antigos para tocar música medieval.

André Mesquita, Revista Cover Guitarra Acústico, junho/1999
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