Viola no sangue 

De família de violeiros, Roberto
Corrêa assumiu sua lida: divulgar a
viola caipira pelo Brasil e pelo mundo.
E vem sendo reconhecido pela crítica
como nosso maior representante
no instrumento

Agosto de 1937. O fazendeiro João Baptista Corrêa, membro de uma família consagrada de violeiros matogrossenses, chega a uma de suas pequenas propriedades no Triângulo Mineiro. 

Felipe Barra
Robviol.jpg (16183 bytes) Estudioso da
viola caipira, Roberto

Corrêa ponteia suas

composições com

erudição: “Tenho

orgulho de ser caipira”

Estava tranqüilo e satisfeito. Havia surpreendido os habitantes da pequena Campina Verde, interior de Minas Gerais, ao compor uma moda em que denunciava, com versos rimados, a compra de votos e outras falcatruas da política local. No sertão, àquela época (como agora), as rixas se resolviam à bala e a moda de Corrêa tinha desagradado muita gente. A resposta não tardou. Ao descer de seu cavalo para abrir as varas da porteira, Corrêa é tocaiado. Morre com o corpo cravado de balas. Tinha 39 anos de idade e não teve tempo para, a exemplo de todos os violeiros de sua família, ensinar a arte da viola ao filho Avaí Dameão Corrêa. 

Março de 1957. Na fazenda da família, em Campina Verde, nasce Roberto Nunes Corrêa, o primeiro filho de Avaí e da jovem Eleusa. O menino, aos oito anos de idade, resolve aprender violão com o mestre Zé da Conceição, que apesar de não ter conhecimento formal de música, treinou o ouvido do garoto para as nuances das notas e arranjos musicais. Roberto ainda não conhecia o destino de seu avô. Nem sabia que trazia nas veias a herança de uma família de violeiros. 

Março de 1977. O jovem Roberto Corrêa percebe que deve deixar sua cidade em busca de mais instrução. Vai para Belo Horizonte, tenta vestibular para medicina e é reprovado. No caminho de volta, senta-se ao lado de uma conterrânea que era dona de uma pensão familiar em Brasília. Ela lhe conta como é a cidade e relata um fato curioso: em Brasília, os estudantes sobem às árvores para ler. A imagem de jovens sobre os galhos estudando brilha na mente do rapaz e ele decide mudar-se para a Capital Federal. 

Junho de 1978. Depois de tentar vestibular para Engenharia Elétrica, Roberto é aprovado em Física. Não sabia direito o que queria da vida. Enquanto estudava, criou o grupo de cordas Olho D’Água com outros colegas. Um dia, caminhando pelo comércio da cidade, deparou-se numa loja com uma viola. Sem saber direito por que, entrou, separou todo o dinheiro que tinha e comprou o instrumento. Fechava-se o ciclo: Roberto assumia, uma geração depois, a sina do avô João. E iria além. Hoje, o violeiro é talvez o mais importante do País ou, segundo as palavras de Mauro Dias do jornal O Estado de São Paulo, “um dos maiores violeiros de todos os tempos”. 

Esta bem poderia ser a trama de um romance de Guimarães Rosa. Mas é, em resumo, a história da paixão do violeiro Roberto Corrêa pelo instrumento que tem ajudado a divulgar pelo mundo afora. Com nove discos lançados (um deles inaugurou a série Traditional Music of the World, na Alemanha), um Prêmio Sharp e apresentações que vão do Japão, China a Itália e Cuba e mais uma dezena de países, o músico tem a alma do sertão brasileiro e, assim como o diplomata Rosa, ponteia sua viola caipira de erudição e mistério. 

Desde que adquiriu a primeira viola, Roberto passou a viver para ela. Mesmo cursando Física, em suas matérias optativas sempre escolhia disciplinas da Música. Estudou violão clássico, aprendeu a ler as partituras e, sem saber direito como, enviou projeto de iniciação científica ao CNPq para pesquisar a viola. “Eu não sei se eles achavam que eu ia fazer uma pesquisa de acústica no instrumento, não sei o que eles entenderam de um estudante de Física querendo pesquisar a viola... Talvez seja aquilo de você propor uma coisa e as pessoas entenderem outra. Acho que eles resolveram dar a bolsa para ver o que aconteceria dali”, diz Roberto, entre risos. 

Foram dois anos de iniciação científica, tempo usado pelo estudante para fazer viagens ao interior, travar contato com violeiros antigos,como Zé Coco do Riachão, retomar uma tradição de moda de viola que estava sendo esquecida (prática que ele tem até hoje). O resultado do trabalho foi apresentado. Mas o contato com o mundo da viola mostrou-se rico demais para um projeto tão limitado. Concluído o curso de Física, Roberto teve a certeza: não seria Físico. “Tinha nas mãos um papel que me dizia ser uma coisa que eu não era. Mas então, o que eu era? Fiquei deprimido, voltei para Campina Verde. Daí, peguei a viola e fui pra pracinha. Ali saiu uma música, Perobeira Maria, dedicada aos irmãos Maria da região de Perobas, que tinham um grupo de música e me ajudaram a conhecer minhas origens, minha história. Depois de compor esta música, me veio a certeza: eu sou violeiro, é isso o que eu quero. A partir daí, me determinei a não deixar nada me desviar do caminho da música. Estudei pra caramba, dez horas por dia de viola. Sabia que não podia casar, ter filhos, para não me desviar daquele difícil caminho que tinha pela frente com aquele instrumento”, relembra. 

Formado, Roberto conseguiu nova bolsa do CNPq, desta vez para Aperfeiçoamento. A má vontade de um consultor (que não aceitava que seu orientador fosse da área de música e não de física) resumiu esta nova pesquisa a um ano e meio. “Depois ele veio me convidar para uma bolsa de estudos em Indiana, nos Estados Unidos, porque tinha gostado muito da pesquisa”, conta Roberto. “Primeiro, me corta a Bolsa, depois me oferece outra na melhor universidade do mundo de musicologia... Não entendi nada até hoje. Mas não aceitei”.

Em 1983, Roberto Corrêa começa sua carreira como violeiro. Formado em Música, faz seu primeiro concerto-solo no Teatro Galpãozinho, Aparecênça, com a maior parte das peças sendo de sua autoria. Inicia-se um tempo de apresentações para um público fora do âmbito universitário. Publica também o primeiro livro sobre a viola no Brasil, Viola Caipira, resultado de seus quase quatro anos de pesquisa. “Nesta época, eu já tinha consciência de que era um violeiro e minha família também entendeu esta escolha e me contou a história de meu avô. Só aí é que eu descobri esta minha família de violeiros, esta minha herança, a minha história”. 

Carmem Moretzsohn 
Repórter do Jornal de Brasília 

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