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Viola no sangue
Tanto a viola
quanto a pesquisa nasceram na vida de Roberto Corrêa espontaneamente
e foram sendo consolidadas através de muito trabalho. “A
minha sensação é de que existe dentro de
mim um vão muito grande que não foi preenchido com
a tradição por causa de uma tragédia. Mas
este vão existe e eu vou atrás de preenchê-lo.
Na verdade, eu pesquiso para mim mesmo, o imaginário deste
povo passa a ser meu”, afirma.
Mas o violeiro
foi sentido a curiosidade de seu público. Nos recitais,
entrava no palco imbuído da tarefa de representar uma
cultura, tentando mostrar a beleza de tudo o que vinha descobrindo,
contar sua história. Percebia a recepção
que estas informações tinham por parte da platéia.
Resolveu, então, passar adiante o conhecimento que vinha
adquirindo. Passou a integrar o quadro de professores da Escola
de Música de Brasília (onde hoje é pesquisador)
e fazia viagens frequentes ao interior.
Ao mesmo
tempo, o trabalho de composição ia de vento em
popa. Roberto fugia aos esquemas clássicos, inovava.
“Esta certeza interna deste atavismo, sempre me deu uma liberdade
muito grande para fazer o que eu quiser com a viola. Isso está
dentro de mim, é o meu jeito de fazer as coisas. Eu fui
escolhido pela viola, escolhi a minha história, fui tocado
pela vida. As pessoas não sabem o sofrimento também
que isso me dá, pois é um trabalho de um rigor
absoluto, de muito estudo, de uma concentração
louca, de perfeccionismo”, explica o violeiro.
Em 1989,
o International Institute for Comparative Music Studies, da
Alemanha, convidou o músico brasileiro para inaugurar
uma série dedicada a registrar a música regional
de várias partes do mundo. Era o passo que faltava. De
lá para cá, o violeiro já foi o representante
oficial do Brasil em vários eventos musicais na Europa
e Américas.
Fez recitais
em terras tão longínquas quanto China e Japão.
E lançou um disco referencial para a viola no Brasil,
Uróboro, considerado inovador, um disco erudito de viola
caipira. “A coisa mais importante que tenho são as composições.
Elas já vêm livres. As músicas que componho
vão muito além daquilo que eu conscientemente
conheço. Nascem quando estou num estado de profunda concentração.
Por isso tenho uma reverência muito grande a isto que
existe dentro de mim, ao estado de abstração que
tenho ao compor. É um contato que se estabelece com alguma
coisa que há dentro de mim”, tenta explicar.
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Felipe
Barra
Com a esposa
Juliana, Roberto
vem registrando a
música regional do
entorno de Brasília
CDs
Editados
- Uróboro
- Viola Corrêa/1994
- Crisálida
- Viola Corrêa/1996
- Voz
e Viola (com Inezita Barroso) - RGE/1996
- Caipira
de Fato (com Inezita Barroso) - RGE/1997 (Prêmio
Sharp)
- Brasil
Musical - Série Instrumental do Banco do Brasil,
Tom Brasil/1997
- Viola
Caipira - Unesco, Alemanha/1989
- Viola
Caipira, um pequeno concerto - RGE/1998 (reedição
de vinil lançado em 1989)
- Marvada
Viola - Funarte/1997 (reedição de vinil
de 1987)
- No
Sertão - NS/1998 (com o Quinteto de Cordas)
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No ano passado,
ao lado da esposa (e também Física) Juliana Saenger,
Roberto Corrêa decidiu registrar a música tradicional
do entorno de Brasília. O projeto foi aprovado pela Fundação
Cultural do DF e rendeu o CD Sertão Ponteado, que reproduz
cantorias de devoção, diversão, terço
cantado, danças, cantos e cantigas de roda de oito cidades
próximas. O disco teve tiragem limitada e foi distribuido gratuitamente.
Hoje, ele faz parte do acervo da Viola Corrêa Produções
Artísticas, a empresa que o violeiro abriu e pode ser comprado
pelo telefone ou pela internet (www.robertocorrea.com.br).
Atualmente, Roberto
continua se dedicando, junto com Juliana, ao projeto de registro da
música regional do entorno, mas também encontra tempo
para trabalhar no livro que promete aprofundar o material apresentado
em seu primeiro lançamento, Viola Caipira. Desta vez, o violeiro
vai ensinar passo a passo os melindres da viola e fazer seu livro
ser acompanhado de um CD contendo as aulas. Por isso, o violeiro tem
trocado as cordas pelas teclas do computador. Mas será por
pouco tempo. Roberto tem já acertados vários recitais
pelo Brasil, muitos para lançamento de No Sertão, CD
que o violeiro recém gravou com o Quinteto de Cordas. Afinal,
a viola de Roberto é caipira e universal. “Eu uso a palavra
caipira com muito orgulho. Acredito que, mesmo com essa carguinha
que ela tem, expressa toda uma filosofia de vida, de alguém
que preserva suas tradições, sua alimentação,
os pratos típicos, a história, a música de sua
região. Eu acredito piamente nisso. Corri o mundo dando recitais
e o que digo é sempre isso: sou músico do Brasil, mas
de uma região do Brasil, o Brasil central”.
Carmem
Moretzsohn
Repórter do Jornal de Brasília
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